A IA deixou de ser promessa e virou termômetro da economia global: trilhões em disputa, empregos na corda bamba
A inteligência artificial deixou de ser promessa de laboratório para se tornar variável central do crescimento econômico: o Goldman Sachs projeta que a IA generativa pode elevar o PIB mundial em 7% — cerca de US$ 7 trilhões — na próxima década, enquanto o Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que a tecnologia afetará 40% dos empregos do planeta, chegando a 60% das vagas nas economias avançadas. O assunto domina a agenda de governos e empresas em 2025 porque o efeito já não é especulativo: aparece nos balanços corporativos, nas políticas de bancos centrais e nos programas de qualificação de países ricos e emergentes. A pergunta que orienta economistas e formuladores de políticas não é mais se a IA transformará a economia, mas para quem os ganhos serão distribuídos.
A disputa pelos trilhões da produtividade
As estimativas sobre o potencial econômico da IA atingiram escala comparável à das grandes revoluções industriais. Pesquisa da McKinsey & Company, publicada em 2023, calculou que a IA generativa pode adicionar entre US$ 2,6 trilhões e US$ 4,4 trilhões por ano à economia global em 63 casos de uso analisados, com destaque para atendimento ao cliente, marketing, engenharia de software e P&D. Já os economistas do Goldman Sachs projetam incremento de US$ 7 trilhões ao PIB mundial em dez anos, impulsionado pela automação de tarefas e pela aceleração da inovação.
Os números têm impacto imediato sobre o mercado financeiro. Levantamento citado pela Federação das Indústrias do Estado do Espírito Santo (Fiees) identificou US$ 7,1 trilhões em receitas que podem ser transferidas entre empresas já em 2025, reordenando setores inteiros conforme a velocidade de adoção da tecnologia. Companhias que integram IA a seus processos produtivos tendem a ganhar participação de mercado às custas das retardatárias — um movimento que investidores monitoram de perto ao precificar ações de tecnologia e de setores tradicionais.
O alerta do FMI: 40% dos empregos na mira
O contraponto aos ganhos de produtividade vem do FMI, que em janeiro de 2024 publicou análise assinada pela diretora-geral, Kristalina Georgieva, sobre os efeitos da IA no mercado de trabalho global. "As economias avançadas e alguns mercados emergentes verão 60% de seus empregos afetados", afirmou Georgieva, ressaltando que, no mundo todo, cerca de 40% das ocupações sofrerão algum impacto. O documento alerta que, entre as ocupações expostas, aproximadamente metade pode se beneficiar da tecnologia como ferramenta de complementaridade — enquanto a outra metade corre risco real de substituição, com trabalhadores realizando tarefas que a IA consegue executar com custo menor.
O risco concentra-se na classe média e em profissões intensivas em tarefas cognitivas repetitivas, como processamento de dados, telemarketing e funções administrativas. Em março de 2025, novo artigo do FMI voltou ao tema para a América Latina: o órgão sustenta que, nos países da região, os ganhos de produtividade dependem de infraestrutura digital, acesso a dados e investimento em qualificação — sem os quais o avanço da IA pode aprofundar desigualdades em vez de reduzi-las.
Um choque tecnológico com velocidade inédita
A discussão atual ganha contornos próprios quando comparada a revoluções anteriores. A eletricidade levou décadas para se difundir pelas fábricas; o computador pessoal, cerca de vinte anos para alcançar uso massivo. A IA generativa, por sua vez, atingiu 100 milhões de usuários poucos meses após o lançamento do ChatGPT, no fim de 2022 — a adoção mais rápida de uma tecnologia de consumo na história, segundo análises da indústria. Economistas classificam a IA como uma "tecnologia de uso geral", capaz de impactar simultaneamente todos os setores, à semelhança da máquina a vapor e da internet.
Essa velocidade comprime o tempo disponível para adaptação de trabalhadores e instituições. Enquanto nas transições anteriores havia gerações para requalificar a força de trabalho, o ciclo atual ocorre em poucos anos, o que eleva a pressão sobre sistemas educacionais, políticas trabalhistas e redes de proteção social — e explica por que o tema migrou dos departamentos de tecnologia para os ministérios da Economia.
Brasil: quase R$ 1 trilhão em jogo
No Brasil, os números também chamam atenção. Estudo da plataforma de inteligência regulatória Reglab, divulgado em 2025, estima que a adoção da IA pode adicionar R$ 986,7 bilhões ao Produto Interno Bruto em valor presente até 2030 — quase 10% do PIB atual do país. A projeção considera ganhos de produtividade em setores como agro, indústria, serviços financeiros e saúde, além da redução de custos operacionais.
Perspectivas de médio prazo são ainda mais ambiciosas: levantamento citado pela Confederação Nacional da Indústria indica que a IA pode acrescentar até 13 pontos percentuais ao PIB brasileiro ao longo da década de 2030. O mercado de trabalho, porém, permanece o ponto sensível. Dados da Fundação Getulio Vargas (FGV) mostram que 45% do emprego formal no país está exposto à IA: 15% dos trabalhadores têm alta complementaridade com a tecnologia e tendem a ganhar produtividade, enquanto os 30% restantes enfrentam maior risco de substituição — proporção que exige resposta coordenada de política pública.
Empresas na linha de frente entre a adoção e a realocação
O comportamento corporativo reflete a dualidade do momento. Pesquisa do IBRE/FGV aponta disseminação acelerada da IA entre empresas brasileiras, com visão majoritariamente positiva sobre os efeitos na produtividade — mas o mesmo estudo revela desafios na capacitação de equipes e na governança de dados. No plano global, o Fórum Econômico Mundial projeta que, até 2030, a automação e a IA podem eliminar 92 milhões de postos de trabalho, ao mesmo tempo em que criariam empregos em áreas que hoje nem existem, como gestão de sistemas autônomos e curadoria de conteúdo gerado por máquinas.
Para especialistas ouvidos em relatórios do FMI e da McKinsey, a diferença entre cenário virtuoso e traumático será decidida pela velocidade das políticas de requalificação — e pela disposição dos governos de financiar a transição antes que o desemprego tecnológico se transforme em crise social.
O que esperar a seguir
O próximo capítulo será definido menos pela tecnologia e mais pelas escolhas institucionais: regulação, tributação, investimento público em educação e acordos comerciais que distribuam os ganhos de forma menos concentrada. A IA promete ser a maior alavanca de produtividade desde a internet — mas, como alertou Georgieva, sem políticas corretivas, seus frutos podem beneficiar poucos enquanto os custos da transição recaem sobre muitos. O ritmo dessa corrida, agora, depende de quem chega primeiro — e de quem chega junto.